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Samaín e Halloween: o que realmente se celebra na Galiza

Todos os anos, quando outubro chega ao fim e as primeiras névoas do outono envolvem as paisagens galegas, ressurge o debate: É o Samaín uma tradição autenticamente galega? A Galiza é o berço do Halloween? A resposta, como acontece com tantas questões de identidade cultural, é mais complexa do que os títulos sugerem.

Na Grupo Country Homes consideramos fundamental honrar as nossas tradições com honestidade histórica. Por isso, neste artigo queremos esclarecer alguns mal-entendidos comuns sobre o Samaín, explorar a verdadeira origem destas celebrações e, acima de tudo, celebrar os autênticos costumes galegos relacionados com o culto aos mortos que de facto perduraram durante séculos na nossa terra.

Desmontando o mito: a Galiza não inventou o Halloween

Comecemos pelo que não é verdade: o Samaín não é uma festividade de origem galega, nem a Galiza é a precursora do Halloween. Esta afirmação, embora bem-intencionada e frequentemente repetida, não se sustenta do ponto de vista histórico. No entanto, a Galiza tem sim as suas próprias tradições ancestrais vinculadas a esta época do ano, igualmente valiosas e com elementos partilhados com o Halloween americano.

A origem real: o Samhain das ilhas celtas

Samhain (pronunciado "sow-in") é uma festividade ancestral que se celebrava há mais de 2.000 anos nas comunidades celtas da Irlanda, Escócia, País de Gales e Ilha de Man. Para estes povos, a noite de 31 de outubro para 1 de novembro marcava o fim do verão e o começo do inverno, representando também o ano novo celta.

Os antigos celtas acreditavam que nesta noite liminar o véu entre o mundo dos vivos e o dos mortos se tornava mais fino, permitindo que as almas dos defuntos regressassem temporariamente. Grandes fogueiras eram acesas, rituais eram realizados e oferendas eram deixadas para honrar os ancestrais e proteger-se de espíritos malignos.

Esta tradição viajou para a América do Norte com os emigrantes irlandeses e escoceses durante o século XIX, especialmente após a Grande Fome da Batata (1845-1849). Ali, o Samhain evoluiu e se transformou até converter-se no Halloween que conhecemos hoje: uma festividade comercial norte-americana que posteriormente foi reexportada para a Europa e para o resto do mundo.

Evidências do Samhain celta na Galiza

A relação da Galiza com o mundo celta é uma questão que hoje gera debates entre historiadores e arqueólogos. Enquanto as fontes romanas denominavam "celtas" os habitantes do noroeste e existem inscrições onde eles mesmos se identificavam assim, a arqueologia ainda discute se houve uma presença celta direta ou mais propriamente uma influência cultural.

O que é inegável é que a Galiza partilha com as terras celtas do Arco Atlântico (Irlanda, Escócia, Bretanha) uma série de traços culturais, linguísticos e simbólicos que falam de conexões antigas e profundas. A cultura castreja galega apresenta semelhanças evidentes com outras culturas do mundo celta atlântico.

No entanto, não existem evidências históricas nem arqueológicas de que o Samhain especificamente, como festividade celta, se celebrasse na Galiza antiga. As tradições galegas relacionadas com o Dia de Finados têm a sua própria evolução e características, embora possam partilhar elementos comuns com outras culturas atlânticas.

O Samaín galego: uma recuperação recente com raízes antigas

E agora vem a parte verdadeiramente interessante: de onde surge então o "Samaín galego" que hoje celebramos?

O trabalho de Rafael López Loureiro

O Samaín tal como o conhecemos atualmente na Galiza é, em grande medida, uma recuperação moderna iniciada em 1990 por Rafael López Loureiro, um professor primário de Cedeira, na costa corunhesa.

Tudo começou quando a sua filha chegou a casa com uma abóbora decorada ao estilo Halloween da aula de inglês. López Loureiro recordou que ele mesmo, na sua infância, tinha esculpido abóboras (ou "melões", como lhes chamam na sua zona) por altura do Dia de Finados. Esta memória levou-o a investigar.

A sua busca revelou que até há apenas 30 anos, em numerosas aldeias galegas (e também em zonas de Zamora, León e norte de Cáceres) existia o costume de esculpir abóboras ou nabos, iluminá-los com velas e colocá-los em janelas ou cruzamentos de caminhos. As crianças saíam com colares de castanhas, as mulheres deixavam comida para as almas... Tradições que se foram perdendo com o êxodo rural mas que ainda viviam na memória dos avós.

López Loureiro documentou estes costumes no seu livro "Samaín: a festa das caliveras" e, juntamente com a associação cultural Chirlateira (e posteriormente Amigos do Samaín), organizou a primeira celebração do Samaín em Cedeira em 1990. A iniciativa pretendia recuperar as tradições locais e oferecer uma alternativa ao Halloween comercial que começava a chegar dos Estados Unidos.

A deriva do Samaín moderno

Com o passar dos anos, surgiu uma ironia que o próprio López Loureiro reconheceu com tristeza: o Samaín que ele ajudou a recuperar como resistência face ao Halloween tinha acabado, em muitos casos, por converter-se num "Hallowmaín"—uma mistura que adota as abóboras, disfarces e estética do Halloween norte-americano, simplesmente rebatizando-o com um nome galego.

A intenção original era resgatar os costumes autóctones, mas a força da globalização cultural é, às vezes, demasiado poderosa. Muitas celebrações atuais do Samaín incorporam elementos que nunca fizeram parte das tradições galegas: disfarces de zombies e vampiros, decorações comerciais, e até o "trick or treat" anglo-saxónico.

Isto não significa que o Samaín atual careça de valor—as tradições sempre se transformam e adaptam—mas é importante estar consciente deste processo e de que elementos são realmente autóctones.

As autênticas tradições galegas do Dia de Finados

Na Galiza, os dias 1 e 2 de novembro sempre foram datas de profunda importância. Jornadas que transcorriam numa calma sustida, dedicadas às visitas ao cemitério, a reunir-se com familiares e vizinhos, e a recordar os que já não estão. Era costume que aqueles que tinham emigrado voltassem à aldeia para honrar os seus mortos.

Tanto assim que, nas esquelas, se incluíam horários de autocarros contratados pelas famílias para recolher os parentes de aldeias distantes. Muito mais que abóboras esculpidas ou disfarces, esta conexão espiritual com os ancestrais define a nossa relação com o além.

Então, que tradições relacionadas com o culto aos mortos fizeram parte genuína da cultura galega durante séculos?

Abóboras, nabos e caliveras: um costume quase esquecido

Sim, na Galiza esculpiam-se abóboras. Ou mais exatamente, esculpiam-se abóboras, nabos, beterrabas ou qualquer fruto disponível para criar "caliveras" ou "caveiras" iluminadas.

Cada zona tinha o seu nome para elas: "calacús" nas Rías Baixas, "calabazotes" no Ortegal, "caveiras de melón" em Cedeira, "colondros" em Ourense, "bonecas" em Xermade... As crianças preparavam-nas esvaziando-as, esculpindo caras aterradoras, acrescentando dentes feitos com pauzinhos e colocando uma vela no interior.

Onde eram colocadas? Nas janelas das casas, nos cruzamentos de caminhos, nas entradas dos cemitérios. O objetivo era duplo: iluminar a escuridão das noites outonais e, segundo a tradição, afastar os maus espíritos ou guiar as almas dos defuntos.

Este costume perdurou em zonas rurais até aos anos 60-70 do século XX, desaparecendo depois com o despovoamento rural e a influência de costumes urbanos. Não foi até ao trabalho de recuperação de López Loureiro nos anos 90 que voltou à vida pública.

Uma curiosidade: em Quiroga (Lugo) as abóboras esculpidas eram secadas e conservadas para serem usadas como máscaras durante o Entroido (Carnaval), conectando assim dois momentos liminares do calendário tradicional.

O magosto: castanhas, fogo e comunidade

Inseparável destas datas está a celebração do magosto, uma tradição que se mantém viva em toda a Galiza. Em redor das fogueiras, ao cair do outono, famílias e vizinhos reúnem-se para assar castanhas recém-colhidas e partilhar histórias.

O magosto celebra-se entre finais de outubro e princípios de novembro, coincidindo com a colheita da castanha e com as festividades de Finados. O fogo, as castanhas e o sentido de comunidade no limiar do inverno fazem parte indiscutível da nossa tradição e, em algumas zonas da Galiza, era habitual deixar castanhas nas janelas como oferenda no Dia de Finados.

As castanhas assadas (que alguns chamam "castanhas de finados"), o vinho novo, o fumo que se eleva para o céu outonal... O magosto é, antes de tudo, uma celebração da terra, dos frutos da colheita e do calor partilhado quando se aproxima o frio.

A Santa Compaña: quando os mortos caminham

Se há uma lenda que encarna a relação galega com o mundo dos mortos, essa é a Santa Compaña, uma procissão de almas penadas que vagueia pelos caminhos rurais nas noites de nevoeiro, portando velas e vestidas com túnicas negras com capuz. Esta visão aterradora faz parte do imaginário coletivo galego desde tempos imemoriais.

Embora a lenda da Santa Compaña se conte durante todo o ano, associa-se especialmente às noites de Finados, quando se acreditava que o véu entre mundos era mais permeável. A tradição popular desenvolveu numerosas proteções: traçar um círculo no chão e meter-se dentro, refugiar-se junto a um "cruceiro", levar uma cruz ou, simplesmente, não sair de casa em plena noite.

Junto à Santa Compaña convivem outras figuras do folclore galego vinculadas à morte e ao além: as meigas (que não são bruxas malvadas, mas seres que podem ajudar ou prejudicar), as lavandeiras que lavam mortalhas nos rios, os trasgos que habitam as casas antigas, as mouras que guardam tesouros nos castros...

Todo este universo mitológico fala de uma cultura que nunca separou radicalmente o mundo dos vivos do dos mortos, que entende a natureza como povoada de presenças e que mantém um diálogo constante com o invisível.

Outros costumes tradicionais

  • As almas do Purgatório: Em muitas igrejas galegas celebravam-se missas especiais pelas almas do Purgatório. Era costume rezar e fazer oferendas pelas almas que ainda deviam purgar os seus pecados antes de alcançar o céu.
  • Comida para os mortos: Em algumas zonas era tradição deixar a mesa posta depois do jantar de Finados, com comida e uma cadeira vazia, caso as almas dos defuntos quisessem voltar a casa e tomar algo.
  • Pedir polas ánimas: Em lugares como a Illa de Arousa perdura "o día de pedir", quando as crianças vão de casa em casa pedindo "unha limosniña polos difuntiños que van alá", recebendo em troca doces ou moedas.
  • O fogo sagrado: Para além do magosto, o fogo sempre teve um papel central nestes dias. As "lareiras" das casas mantinham-se acesas toda a noite para que os defuntos que regressavam encontrassem calor e luz.

Viver o “Halloween” na Galiza rural

Para aqueles que consideram mudar-se para o interior galego, estas datas oferecem uma janela privilegiada para compreender a alma desta terra. Para além dos eventos organizados, nas pequenas aldeias perdura algo mais subtil e profundo: o respeito pelos ciclos naturais, a conexão com a terra, o sentido de comunidade que se reforça nos momentos de transição.

O Samaín não é uma invenção galega nem a Galiza foi o berço do Halloween. Mas isso não torna menos valiosas as nossas próprias tradições. A Galiza tem as suas próprias formas de se relacionar com a morte, com o além, com a mudança das estações. Tradições que remontam a tempos imemoriais e que sobreviveram, transformando-se, até aos nossos dias.

Quando escolher uma vida rural na Galiza, estará também a escolher fazer parte desta memória viva, destas tradições que se sentem no ar fresco de novembro, no cheiro a castanhas assadas, nas histórias que os vizinhos contam ao calor da lareira.

Isso não se encontra em nenhum outro lugar do mundo, e isso, definitivamente, não precisa de um nome para ser mágico.

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